Mulheres e a construção de Brasília

A construção de Brasília contada por mulheres

A construção de Brasília contada por 50 mulheres - o filme

A memória feminina da construção de Brasília, experiências de migração, trabalho, maternidade, redes de solidariedade e o cotidiano

Filme retrata a história da construção de Brasília contada por 50 mulheres – Parte 1/2 e Parte 2/2 (programa Documentação/TV Brasil – CanalGov). disponível seguintes links https://www.youtube.com/watch?v=BYsEgFAxjNA&t=25s   e  https://www.youtube.com/watch?v=16fwVNp7Cxw

As duas partes retomam o projeto Poeira e Batom no Planalto Central, de Tânia Fontenele Mourão (com Tânia Quaresma), que reúne depoimentos de 50 mulheres que chegaram ao Planalto Central entre 1956 e 1960. O foco é a memória feminina da construção de Brasília, experiências de migração, trabalho, maternidade, redes de solidariedade e o cotidiano nos acampamentos e na Cidade Livre/Núcleo Bandeirante, como contranarrativa à história oficial centrada em engenheiros e autoridades. 

O per~iodo de 1956–1960 e o “ritmo de Brasília” – As entrevistadas narram a travessia de diferentes regiões do país rumo ao canteiro de obras; falam de poeira, frio e improviso. O pano de fundo institucional é a criação da NOVACAP (19 set. 1956), estatal responsável por “gerenciar e coordenar” a construção da nova capital até sua inauguração (21 abr. 1960). A empresa encarnou o “ritmo de Brasília”, isto é, a aceleração das frentes de trabalho para cumprir o cronograma. Atores: Juscelino Kubitschek (presidente), Israel Pinheiro (presidente da NOVACAP), diretores Ernesto Silva e Bernardo Sayão. Partidos: base governista PSD–PTB; oposição UDN participou do conselho e indicou Íris Meinberg à diretoria. 

As “candangas” aparecem como cozinheiras, lavadeiras, costureiras, professoras, parteiras, enfermeiras, funcionárias de postos de saúde e comércio; muitas também atuaram em escritórios da NOVACAP e em serviços das empreiteiras, além do trabalho doméstico não-remunerado que sustentou a vida nos acampamentos. O documentário reivindica visibilidade a esse trabalho historicamente silenciado. 

Predominaram barracos e alojamentos improvisados; a Cidade Livre tornou-se polo comercial e de lazer. As mulheres relatam redes de apoio (vizinhas que revezavam cuidados infantis, partos assistidos “no seco” por falta de recursos), construção comunitária de escolas, capelas e postos de saúde. A memória afetiva – orgulho, liberdade e esperança – convive com lembranças de precariedade material. 

Falas destacam partos com condições mínimas, escassez de médicos e medicamentos e acidentes de trabalho que afetavam famílias. O recorte feminino evidencia dupla jornada e vulnerabilidades específicas (gravidez, cuidado com crianças) em um canteiro pensado para homens jovens. 

Relações de gênero, racismo e classe – A obra reforça que a história oficial foi “inventada por homens”, enquanto a cidade também foi inventada por mulheres, muitas negras e migrantes pobres, cuja contribuição permanece pouco registrada. Projetos acadêmicos e jornalísticos recentes sublinham esse apagamento e defendem políticas de memória das candangas. 

O filme situa a atuação de Lúcio Costa (plano urbanístico) e Oscar Niemeyer (projetos) ao lado do aparato estatal que viabilizou a obra (NOVACAP). Esses nomes, com Pinheiro, Sayão e outros, formam a face “visível”; a série desloca o foco para as mulheres que fizeram a cidade funcionar. 

As partes explicam Brasília como peça-chave do Plano de Metas (nacional-desenvolvimentismo de JK): deslocamento do eixo político-administrativo, integração territorial, obras de infraestrutura e industrialização acelerada. Ao mesmo tempo, registram os conflitos com a oposição congressual e a disputa de narrativas na imprensa. 

Brasília condensou metas de energia, transportes e indústria, irradiando frentes de trabalho e atraindo dezenas de milhares de migrantes. O peso das mulheres no cuidado, nos serviços e na administração cotidiana demonstra que a “cidade modernista” se ergueu sobre trabalho reprodutivo e comunitário invisibilizado. 

A NOVACAP, criada por lei e dirigida por quadros técnicos e políticos (inclusive membros da UDN por arranjo de composição), coordenou contratos com empreiteiras e regulou o território do futuro DF - lembrando que a disputa PSD–PTB x UDN também atravessou conselhos e nomeações. 

As duas partes do programa reforçam Brasília como obra coletiva: sem o trabalho e a organização das mulheres — nos serviços, na saúde, no ensino, no comércio e no cuidado, a capital não teria nascido no prazo. Ao recuperar suas vozes, o documentário desloca o centro da história de “grandes homens e formas” para experiências sociais concretas, convidando a incorporar as candangas ao patrimônio de memória da cidade e do país. Isso também reequilibra a compreensão do Plano de Metas, lembrando que desenvolvimento material dependeu de um vasto trabalho feminino, quase sempre invisível, que manteve a vida possível no canteiro da “obra do século”. 

CANALGOV. Filme retrata história da construção de Brasília contada por 50 mulheres – Parte 1/2. YouTube, 14 dez. 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BYsEgFAxjNA . Acesso em: 31 out. 2025. 

CANALGOV. Filme retrata história da construção de Brasília contada por 50 mulheres – Parte 2/2. YouTube, 23 dez. 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=16fwVNp7Cxw . Acesso em: 31 out. 2025. 

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